NASCIMENTO DA SOPHIE

February 21, 2017

Foto: Michele Marques 

 

ANTES DO PARTO

 

Depois de escrito o relato do parto, eu senti que precisava dividir também o que aconteceu antes do grande dia. Pois o pré-natal é determinante para o sucesso do parto. Entenda aqui "sucesso" como a realização de um parto humanizado. Para quem quer ir direto ao relato do dia do parto, pule direto para a próxima foto.

 

Assim que soube que estava grávida, comecei uma busca incessante por informações sobre parto humanizado. Logo de cara, já deu vontade de vazar do Brasil e ter meu bebê num país desenvolvido - primeiramente pelo parto, mas também por causa dos mosquitos transmissores de todas as desgraças. Mas 'coloquei os pés no chão' e decidi confiar em Deus, me informar e me cuidar ao máximo. O meu marido, Yoseff, viveu intensamente todos esses momentos comigo. 

 

Entendemos que entrar em trabalho de parto era o fator mais importante de todos. Fiquei convencida de que não importava como o meu bebê iria sair, o mais importante era entrar em trabalho de parto, e não fazer nada agendado. Com um pouco mais de pesquisa, entendemos que o parto natural é o que deve acontecer. Parto cesariana é uma opção apenas quando realmente é impossível o bebê nascer sem interferência médica, por risco REAL para a mãe e/ou o bebê. Me parece redundante escrever isso; mas na época, não era tão óbvio assim.

 

Pois bem, eis que estou fazendo o meu pré-natal com uma ginecologista obstetra (GO) maravilhosa, a Dra. Claudiane Arruda - superindicada pela amiga mais exigente que eu tenho -  estou amando tudo... até tentar falar sobre o parto efetivamente - afinal, eu queria conversar sobre o meu plano de parto*. Ela disse que fazia parto normal, me incentivou falando que se eu realmente queria parto normal, eu deveria me preparar para "correr a maratona". E era o que eu já estava fazendo: alimentação adequada (mantive o regime vegetariano o tempo todo, com acompanhamento médico), pilates duas vezes por semana, muita caminhada, sobe e desce de escadas e só não inclui hidroginástica porque não coube na agenda. O problema começou quando eu tentei aprofundar o assunto com a médica - eu queria saber o que iria acontecer comigo, o que eu deveria fazer quando começasse a sentir as dores - e não obtive nenhum auxílio. O máximo que ouvi foi: "A sua bebê é quem vai decidir. Se ela quiser, será natural". Mas eu queria uma orientação profissional mais profunda, uma ajuda para me preparar para o grande dia, gostaria muito de estar confiante e segura de que fiz a minha parte e, principalmente, eu queria eliminar o máximo possível os fatores que pudessem atrapalhar o parto. (Hoje eu vejo que a desinformação da gestante é o principal empecilho para o parto humanizado no Brasil. Mais do que a escassez de profissionais "dessa linha", por assim dizer.)

 

A essa altura da gestação (19 semanas) eu já estava seguindo o conselho de uma querida amiga e agendei um cursinho (para a 26ª semana) com uma enfermeira obstetra (Denise). Ela nos explicou absolutamente tudo o que precisávamos saber sobre o que aconteceria com o meu corpo, o dia do parto, o pós-parto e cuidados com o bebê. Este cursinho foi fundamental em vários aspectos: (1) para me preparar para o dia do parto, identificando corretamente o que estava acontecendo no meu corpo; (2) o parto propriamente, com a respiração e forças corretas no momento correto; (3) e pós-parto, na amamentação, entendendo o fisiologia da coisa, me alimentando corretamente e obtendo auxílio profissional logo nos primeiros momento com o meu bebê.

 

Como a minha GO trabalhava com equipe fechada, eu não pude escolher uma enfermeira obstetra de minha confiança (no sentido de fazer de tudo para que o meu plano de parto se concretizasse). Porém, ela me passou gentilmente o contato da enfermeira do time dela, que foi quem confirmou minhas suspeitas: a minha GO não era da linha humanizada. Apesar de realizar sim alguns partos naturais. Eu não queria correr risco algum, então decidi mudar de médico. 

 

Trocar de GO não é algo simples. Muito pelo contrário, foi o momento mais tenso da gestação. Eu estava amando o pré-natal, mas se eu fosse encaminhada para uma cesariana, eu nunca saberia se poderia ter tido natural. Eu ficaria me questionando para o resto da vida se eu teria conseguido ter minha primeira bebê de forma mais saudável. No dia do parto eu queria poder me concentrar apenas no parto, e não ficar com a pulga atrás da orelha com relação a orientação médica. Por isso, mudamos de GO. 

 

A busca por outro GO foi extensiva. Consegui vários contatos, graças a Denise Ribeiro e uma amiga (Caru). E nesta fase de transição, algumas pessoas foram fundamentais: Caru, Jeisa e Larissa. As experiências delas me muniram de mais informações e me deram força para continuar firme no meu propósito de ter um parto humanizado. Coincidentemente, uma amiga (Ana Paula) teve um parto natural perfeito, que foi combustível para não desanimar dos meus objetivos.

 

Enfim, encontrei um GO de linha natural, Dr. Edoardo Copelli. A forma como cheguei até ele acredito que foi providencial: fizemos uma viagem, com fins acadêmicos e ficamos na casa de uma amiga que, ouvindo meu drama de troca de GO, imediatamente chamou uma amiga dela via FaceTime e já nos apresentou. A amiga dela é enfermeira obstetra, a  Tatiana Lima, o anjo que acompanhou o parto e quem me trouxe até o meu GO.

 

A troca de GO não é fácil, mas vale a pena. Encontrar um GO de linha natural é primordial para a realização do parto humanizado. Não tenho como descrever aqui o meu alívio depois da primeira consulta com o GO da linha natural, pois a equipe está disposta a fazer o parto exatamente como sonhamos e nos preparando. Confesso que fiquei com o coração apertado em pensar que não iria até o fim com a primeira GO, pois o pré-natal com ela foi perfeito até um certo ponto e eu realmente confio no trabalho dela. Mas meu desejo de ter um parto natural era maior que tudo e não queria correr o remoto risco de ser encaminhada para uma cesariana a não ser que realmente fosse a única opção. 

 

Como todas as vezes que tentei contar para a minha GO que iria mudar de médico, eu quase chorava, eu decidi então comunica-la covardemente por e-mail; mas abri o meu coração para ela: a sensação que tinha é de que se fossemos juntas até o final e eu tivesse a Sophie por uma cesariana, eu nunca saberei se poderia ter tido de forma natural. Quando, por outro lado, com uma equipe 100% de linha natural, eu ficaria tranquila de que se fosse encaminhada para a cesariana, seria porque realmente era o melhor para mim e para a Sophie; seria o “plano B”; a última opção, após tentarmos tudo de forma natural. De qualquer forma, continuo indicando a GO que fez a primeira parte do pré-natal, pois ela é maravilhosa e já tive amiga que foi nela mesmo depois da Sophie já ter nascido; eu é que não quis correr o risco. (Talvez a minha amiga também não tenha corrido o risco, mas esse é o relato de parto de outra pessoa. rs...)

 

Assim, eu pude me concentrar unicamente no trabalho de parto - o que já é o suficiente, convenhamos. Ninguém merece estar com dores terríveis, querendo viver plenamente um momento único da vida e ainda ter que se preocupar se os profissionais estão sendo honestos com os seus desejos. Por isso a importância do plano de parto, de se cercar de pessoas que pensam como você e de procurar profissionais que trabalham, de fato, numa linha natural. • 

 

* Planejamento para o dia do parto. Com o objetivo de registrar de forma clara os desejos da grávida, também para que o cônjuge esteja, no mínimo, ciente e apoiando as decisões da esposa, e principalmente: para que a equipe de profissionais saiba qual é o ideal para aquela família.

 

 

 

Foto: Michele Marques 

 

O PARTO

 

Era por volta do meio-dia, eu estava sentada no consultório do Dr. Edoardo Copelli, o Yoseff (meu marido) sentado ao meu lado, e eu não estava acreditando nas palavras do meu obstetra, quem eu tanto confiava: “...sugiro que você vá para o hospital agora, faça uma cardiotoco (cardiotocografia) e quando me ligarem, eu vou pedir que te internem e induzam com Propess.” Fiquei arrasada. Induzir!?! Não foi assim que imaginei o início de trabalho de parto da nossa bebê. Eu não queria induzir nada, queria que meu corpo entrasse em trabalho de parto de forma natural quando ele mesmo quisesse. Eu estava como 40+2 (40 semanas e 2 dias de gestação). Outra paciente do meu GO tinha ficado até 41+2, para então induzirem. Não era para tentarmos tudo de forma natural primeiro?

 

Saí do consultório arrasada, principalmente por não ter conseguido contestar o meu GO. Nós já estávamos com as malas prontas, no carro, há uma semana, mas não fomos para o hospital. Tentei falar com a minha enfermeira obstetra, Tati Lima, em busca de consolo e, de repente, conseguir alterar a sugestão do GO; mas acabamos nos desencontrando por alguns minutos. Nesse desencontro, fiz um FaceTime com uma prima que teve dois filhos de forma natural, em Paris, e a conversa com ela me deixou ainda mais determinada a não induzir e esperar um pouquinho mais e entrar em trabalho de parto naturalmente. Quando consegui falar com a enfermeira, ela me convenceu de que esse era o melhor caminho, pelas mesmas razões que o GO já havia me explicado.

 

De fato, eu já estava com contrações de treinamento (Braxton-Hicks) há várias semanas, mas fortes mesmo já há três semanas. Um dia, no trabalho, não consegui mover as pernas, de tão contraída que estava a barriga (mas sem dor). No cardiotoco, não paravam de me perguntar se eu realmente não estava sentindo nada (não sentia dor alguma). Tivemos até um “alarme falso”, uma semana antes, dado pela médica que fez o cardiotoco numa sexta, que nos disse que não passaria de domingo de forma alguma. - Mas o principal argumento do GO era de que a minha bebê e eu estávamos num quadro perfeito para entrar em trabalho de parto e esperar mais uma semana teria o risco de estarmos num cenário não tão perfeito para o parto. O fato é que estávamos na iminência de engatar no trabalho de parto, só faltava a fagulha.

 

Já à noite, depois de resolver um milhão de coisas (98% não importantes), eu fui tomar um banho para tentar relaxar. No banho, relembrei tudo que tinha vivido até chegar ali, e no meio do turbilhão de pensamentos, bateu aquele medinho de insistir em esperar e o bebê fazer cocô durante o trabalho de parto, do líquido não estar mais tão perfeito, etc. Então eu desabei, chorei orando e desabafando com Deus: “Senhor, Criador do UNIVERSO, Quem me fez, sabe exatamente como a minha bebê foi formada e já sabe inclusive como ela sairá daqui de dentro... por favor, me ajuda?! Eu não quero induzir, mas estou com medo de ir contra os profissionais e insistir em esperar mais. Vou me deitar pra tirar um cochilo agora... por favor, estoura a bolsa nessa soneca!?! Me faz entrar em trabalho de parto ANTES que induzam. É tudo que te peço, em nome de Jesus, amém.” E fui me deitar. Sou boa de sono, capotei rápido, apesar de toda a ansiedade. Nada extraordinário aconteceu. Acordei calma, em paz, e conformada de que teria que ir para o hospital, mesmo que nada tivesse acontecido. Foi a ida mais rápida, calma e tranquila para o hospital. Era quase 1:00 da manhã. A consulta com o GO tinha sido ao meio-dia. A enfermeira obstetra, que estava de prontidão desde às 14h30 já tinha ido pra casa. Fiquei com vergonha de tê-la feito esperar... E nós, não fazíamos ideia de quanto tempo levaria para vermos o rostinho da nossa bebezinha.

 

O recepcionista da Maternidade São Luiz não deve ter entendido nada; a equipe de plantão deve ter me xingado horrores; e eu, na espera da internação, comecei a sentir dores bem fortes. Minha vontade era de rir e não de chorar. Eu não estava acreditando que estava sentindo aquilo sem nem mesmo terem aplicado o Propess ainda. Coincidência ou providência? Era um desconforto na região da lombar e uma dorzinha chata no cóccix. Não tinha posição confortável no sofá da recepção.

 

Às 3:00, entramos no quarto. Minha barriga, que estava superdura na recepção, agora estava toda mole. E o bendito Propess, que nunca mais chegava (o mundo estava dormindo, afinal de contas), foi aplicado somente às 5:35. A Tati, que estava acompanhando tudo via WhatsApp, me tranquilizou de que a equipe estava induzindo na hora certa; - ‘conduzindo’, na verdade, pois eu já estava praticamente em trabalho de parto. Fui dormir para ajudar o Propess a fazer efeito.

 

O apartamento onde ficamos, na Maternidade do Hospital São Luíz. 

 

Três horas e meia depois, fizeram um outro cardiotoco. Eu já tinha tomado meu desjejum (reforçado, como de costume - graças ao maridão, que trouxe muitas coisas saudáveis de casa), então fui caminhar pelo hospital. Como tinham colocado um acesso em mim, a mobilidade não estava muito bacana. Tive que pedir socorro para o meu GO para me livrar da parafernália. Tudo o que eu queria era caminhar e subir e descer escadas (o segundo, não pode, obviamente, - não insista, rs... - eu recebi uma pulseira amarela, indicando perigo de queda...). E nessa, eu fiquei por duas horas, dando voltas no andar do meu quarto e fazendo agachamento dentro do quarto. Eu já estava começando a achar que, sem querer, tinha tirado o Propess do lugar e não estava fazendo efeito; quando, lá por 11:35 eu comecei a sentir dores.

 

Eu sentia uma pressão muito forte atrás, na lombar e cóccix. Tão forte, que refletia na perna direita inteira, até em baixo. (Mal sabia eu, que o meu nervo ciático daria um showzinho.) Avisei à Tati sobre as dores, ela me perguntou se eu conseguia almoçar; e eu, morrendo de fome, respondi “Claro que consigo!”. Porque não conseguiria? Pensei eu (hahaha! Bobinha... tão inocente...). Quando eu me sentei na cadeira... parecia que tinha espinho! Não tinha posição confortável, não tinha jeito de amenizar a dor, e eu acabei almoçando meio em pé, meio sentada, mais pra esquerda que pra direita. E pra ajudar no meu “conforto”, o hospital errou meu regime alimentar, e enviou carne vermelha (sou ovo-lacto-vegetariana). O Yoseff estava tentando trocar o meu prato, mas nunca mais chegava o dito prato vegetariano. E em menos de meia-hora as dores evoluíram muito, eu não conseguia mais esperar, devorei o que tinha de comida ao redor da carne. E esta foi a minha última refeição antes da Sophie nascer.

 

Fizemos mais um cardiotoco, as dores estavam bem fortes e tudo o que eu queria era ficar em posição de “cachorrinho” pra amenizar as dores. Por volta de uma hora após ter almoçado, a Tati chegou, para a minha alegria! Não demorou muito para retirarmos o Propess e ir para o chuveiro. A ducha direto na barriga ajudava bastante, mas a dor que começava na nádega direita e descia pela cocha, até atrás do joelho, começou a aumentar muito. Doía tanto que meus dedos do pé direito começaram a formigar. Eu não conseguia apoiar o peso do meu corpo na perna direita, pois dava “choque”. Fiquei sentada num banquinho, no box, conversando com a Tati e ela direcionando a ducha no barrigão, para amenizar o meu desconforto. A essa altura, a Tati já tinha solicitado a sala de parto (labor delivery room).

 

Enquanto isso, fomos conferir como estava a dilatação. Até colocar o Propess, eu tinha 1,5cm de dilatação apenas. Eu estava na cama, a Tati tinha acabado de conferir e estava me contando que estava com 3cm de dilatação, quando senti algo quente tomando conta de mim, da cama, do mundo! A bolsa tinha rompido. Eram 16:00. E nada de liberarem uma das salas de parto. O São Luíz tem duas e uma estava em reforma (detalhe que fiquei sabendo só depois). Então, como não tinha outra opção, e já não dava mais pra ficar no quarto, descemos para a sala de pré-parto. 

 

Nesta sala, fui direto para o chuveiro, com a bola de pilates, minha música ambiente e o maridão, que estava o tempo todo comigo. As contrações estavam ritmadas e fortes, muito fortes. (Quando uma contração passa, é impressionante, não há vestígios dela, você pode virar cambalhota - eu, no caso, só queria dormir.) Rapidamente as contrações se intensificaram. Depois de um tempo, a bola ainda aliviava o desconforto, mas parece que piorava a situação do ciático. Quando a contração passava, o ciático gritava. Não havia momento sem dor. Cheguei num ponto em que eu já não tinha mais noção do tempo. Só tentava curtir a música ambiente (o Yoseff levou uma caixinha poderosa de música e o tempo todo tínhamos um clima delicioso), tentava rir de coisas que não faço a menor ideia agora do que eram e só lembro da sensação de querer arrancar aquela dor de mim.

 

Quando começava a doer de novo, eu só pensava “Mas já??? Ah, nããão! Outra contração!? Quando isso vai acabar?” Avisava o Yoseff, quem segurava a minha mão superfirme e então começávamos juntos: inspirando por 1,2,3,4 segundos... segurando a respiração por 1,2,3,4... expirando por 1,2,3,4... e segura por mais 1,2,3 segundos. Era a duração de uma contração, 15 segundos. Exatamente como a Denise Ribeiro havia nos ensinado, quatro meses antes. Quando eu expirava, me concentrava em relaxar os ombros e liberar toda a tensão, para mandar toda a tensão, dor e desconforto embora. Eram segundinhos, sem dor, muito prazerosos. Mas logo vinha mais uma contração e começada tuudo de novo. O Yoseff respirou comigo praticamente todas as contrações, segurando forte a minha mão e contando alto para eu não errar na respiração. Isso foi fundamental para suportar o que ainda estava por vir.

 

A Tati, um anjo, sempre alegre, calma, serena e falante ao mesmo tempo; começou a me pedir para fazer força para baixo. Eu, na bola, fazia a dita força para baixo toda vez que uma contração vinha. Sem deixar de fazer a respiração com o Yoseff (pensando agora, não sei como ele não desmaiou. rs...). Acho que nunca concentrei tanto o meu corpo em uma coisa, como na força & respiração durante as contrações do parto. Só que chegou um momento em que, na hora de expirar e relaxar, subia junto uma bolha de ar de refluxo... Poxa vida! No meu único momento de prazer e alívio?! Nem o picolé de limão que a Tati me trouxe, eu consegui terminar.

 

De repente, surge uma outra enfermeira, amiga da Tati, que veio auxiliá-la, pois ela estava com duas pacientes em trabalho de parto ao mesmo tempo. Eu, no São Luiz; e a outra, no Einstein. Mulher é mulher, e mesmo em meio a tanta dor, eu pensei “Quem é essa moça? E o que ela está fazendo aquiiii? Será que a Tati vai ter que ir pro Einstein?” Então a Tati saiu fazer uma ligação e entregou a ducha para a amiga, a Nelly. Eu não curti muito a ideia, até ela começar a fazer massagem na minha lombar. Que combo: ducha, massagem e marido respirado junto comigo! Eu estava no céu das parideiras morrendo de dores. Hehehe!! E só valorizei mesmo tudo isso quando a Nelly teve que ir embora para o Einstein e eu voltei a perceber muito mais as dores na lombar.

 

Momentos depois, em uma certa altura das dores, me deparei com o maior dilema de todo o trabalho de parto... A Tati, segurando o celular com uma mão e a ducha com a outra, me pergunta: “Nani, o anestesista está num dilema: se vem pra cá ou se vai pro Einstein...”. (Nós havíamos fechado uma equipe: GO, enfermeira e anestesista. Fizemos isso para termos a tranquilidade de ter um anestesista que respeita o parto humanizado e já conhece o time de trabalho.) E agora, eu ali, tendo que decidir, entre as contrações, se iria querer anestesia ou não. Eu não fazia ideia do que teria que enfrentar ainda até a minha bebê finalmente nascer. Não sei quanto tempo demorei pra responder, só sei que entramos num consenso - Tati, Yoseff e eu - de que a forma como as coisas estavam evoluindo e a altura que já estávamos, eu sobreviveria sem analgesia.

 

As dores foram se intensificando, ou eu é que fui me cansando, eu queria me pendurar no pescoço do Yoseff, queria dançar, queria que a dor fosse embora! [A pior parte do trabalho de parto, além da dor terrível, é aquela conferida na dilatação. Não só pelo desconforto da checagem, mas por ter que deitar na cama. Não há nada pior do que ter uma contração na cama. O que me faz pensar o quão terrível e cruel é obrigar uma mulher a dar à luz deitada numa cama. Ou em qualquer posição que ela não queira.] Foi então que, entre uma contração e outra, o Yoseff começou a ler algumas mensagens de amigos - em resposta a notícia que ele tinha dado de que a bolsa tinha rompido. Ele foi lendo, eram várias mensagens, quando de repente, ele leu uma que foi incrível! Me abriu a mente de uma forma que o trabalho de parto foi outro depois dela: “Cada contração é uma a menos para ver a sua princesa”. Era isso! Não era MAIS uma maldita contração, e sim, MENOS uma contração para pegar minha bebê nos braços! Eu internalizei isso tão forte, que fui embora! Por volta das 19:00, eis que a Tati surge com um banquinho, todo coberto com panos brancos, com um furo no meio... e me pergunta: “Nani, quer tentar sentar aqui?” Eu estava topando tudo e fui logo me sentando no dito banquinho. E quando veio uma contração, eu não acreditei, que alívio! Que invenção maravilhosa é essa?!

 

Só então me dei conta da sede absurda que eu estava sentindo. Mas não pude beber mais que dois dedos d’àgua. Do contrário, vomitaria. E foi por esta altura que entramos na fase expulsiva. Estava menos difícil fazer a dita força para baixo, pois o corpo agora colaborava também com a força. Era uma sensação muito boa quando eu começava a fazer a força e, de repente, vinha uma força muito maior em cima da que eu estava fazendo. O exemplo não é glamoroso, mas era literalmente como se estivesse fazendo força para evacuar - você começa e o corpo vai ajudando no processo (ou vice-versa, rs...). O meu GO já estava no hospital, já tinha passado na sala pra me ver - e só liberou dois dedos d`água... De qualquer forma, eu fiquei mega feliz, pois era sinal de que estávamos indo bem e não demoraria muito mais. Será...?

 

Eu perdi a noção de tempo. A lembrança que tenho hoje é de que passou muito rápido desde que sentei no banquinho até quando me avisaram que iríamos para a sala de parto. (Consultei a Tati e o meu marido, e eles me confirmaram que levou em torno de 1 hora.) O que foi mais torturante nesse processo todo, foi que, para poder ir da sala de pré-parto para a sala de parto (que eram bem pertinho uma da outra), eu tive que ir de cadeira-de-rodas, e esses poucos segundos ou minutos, duraram séculos, foi bem desconfortável. Mas, finalmente, eu estava no lugar onde a minha filha nasceria.

 

Pois a nossa “sala de parto” foi uma sala de cirurgia normal, já que a única sala de parto ativa do hospital, estava com outra família. (Ainda bem que eu não soube disso antes, pois com certeza iria preferir trocar de hospital. Apesar de que, na prática, não senti falta de nada.) Quando entrei na sala, ela estava com menos luz que no pré-parto; mais aconchegante, com o banquinho já lá de novo, todo preparado com os panos brancos; e claro, a música ambiente do maridão. A verdade é que, não importa onde eu tivesse minha bebê; com o Yoseff e a Tati preparando o ambiente, sempre estaria uma delícia.

 

Me sentei no banquinho e dali não saí mais. O Yoseff se sentou atrás de mim, mais elevado, dando assim apoio para as costas. Eu larguei meus braços por cima das pernas dele. O dr. Edoardo estava sentado bem na minha frente e a Tati no lado direito dele. Time completo. Estávamos todos a postos. As contrações vinham muito, mas muito mais fortes agora. Mas eu estava cansada e já não conseguia fazer muita força junto. Justo agora que precisava fazer toda a força do mundo para baixo! O cansaço foi aumentando. Eu segurava com força nos joelhos do Yoseff e fazia a força. As contrações não paravam, parecia que mal tinha intervalo entre elas. Eu não estava conseguindo prolongar a força para baixo. Mas precisava! Foi quando a Tati me pediu para segurar nas laterais do banquinho, onde tinham entradas para as mãos. Então, quando veio a próxima contração, eu larguei os joelhos do Yoseff e puxei com tudo o banquinho e fiz a força para baixo. Foi maravilhoso! Fez toda a diferença. Eu pensei: “Uhuuuuu! Agora vai!!!” Ledo engano...

 

Eu me empolguei demais e me desconcentrei, fiz tanta força que ela acabou se concentrando na garganta e não na expulsão do bebê. Ao invés de ajudar, eu me cansei. Entre as contrações, o Dr. Edoardo me orientou a não desperdiçar as energias e tentar prolongar a força em baixo. Isso é, ao invés de puxar o ar três vezes em cada contração, agora inspirar uma vez só e segurar, fazendo força lá em baixo até a contração acabar. Eu fiz isso uma vez. Foi incrível!!! Funcionou que foi uma beleza. Eu já estava comemorando (mentalmente). Ledo engano, de novo...

 

Nas duas contrações seguintes, eu não consegui e fiz força na garganta ao invés de expulsar a bebê. Comecei a me sentir realmente cansada. E foi quando senti vontade de chorar, pela primeira vez em todo o trabalho de parto. O dr. Edoardo se levantou - eu fiquei em dúvida se era um bom sinal, se ele estava impaciente comigo, se eu não iria conseguir rápido, se as coisas iriam demorar mais do que pensávamos. - Mas eu sentia que faltava pouco! Só precisava recuperar o fôlego. A Tati ficou comigo, se sentou no lugar do médico e fez algo que foi um misto de sensações pra mim. Ela falou: “Me dá a sua mão.” Eu dei, já prevendo o que ela iria fazer... Meu coração acelerou, ao mesmo tempo me deu medo, aflição e curiosidade. Ela: “Está sentindo? É o cabelo da sua filha!” Ela segurou firme a ponta dos meus dedos e eu senti um pedacinho da cabeça da minha bebezinha. Esperava algo bem duro, mas era meio mole. Foi maravilho e aflitivo ao mesmo tempo.

 

As contrações estavam uma loucura! O dr. Edoardo voltou a se sentar na minha frente; e eu lá, tentando recuperar o fôlego pra puxar mais ar, segurar e fazer a força mais prolongada possível. Entre as contrações, eu me reclinava pra trás e largava as minhas costas no peito do Yoseff. Era reconfortante. Dava alívio e força. E em meio às contrações, ardência do bebê saindo, cansaço, respiração certa, força errada... senti alguém me tocando bem suavemente no braço esquerdo. (Não sei explicar como aquele toque me chamou tanto a atenção. Um nada de toque em meio a tantas coisas fortes que eu estava sentido.) Eu olhei pro meu braço, e vi uma mão com luva. Era a Tati. Olhei pra cima e vi dois olhos bem azuis, arregalados, me olhando firme e ouvi algo do tipo: “Está quase lá, você está indo muito bem. Faz força de uma vez só, segura!”.

 

Depois disso, só lembro de fazer a maior força do universo! Ouvi o dr. Edoardo me perguntando se eu estava com contração. Eu falei que sim, mas depois mudei de ideia, já não sabia mais. Ele falou: “Se não está com contração, então não faz força”. Em seguida ouvi a Tati falando: “Está sim! Faz força, Nani!”, enquanto segurava a minha barriga. Eu fiz. E senti uma ardência forte, era diferente agora, a minha bebê estava saindo - até que enfim, só 1 hora depois de ter entrado na sala, mas 20 horas depois de entrar no hospital! Em seguida, senti um alívio absurdamente maravilhoso. A Sophie nasceu!!! Olhei pra baixo e vi uma bebezinha linda chorando. Ela estava lá, lindinha, nossa bebezinha, vindo em minha direção flutuando pelas mãos do médico. Ela estava com o bocão aberto de choro, com os olhos arregalados me olhando nos olhos. Peguei ela no colo. Tão perfeita! Me larguei no colo do Yoseff, olhei por cima do meu ombro e ele estava com os olhos molhados de lágrimas, nos beijamos e sorrimos, rimos, nos beijamos de novo, olhamos pra ela, era surreal. Foi surreal. Nem 100 páginas de relato podem expressar o que senti naquele momento. Deus é perfeito.  

 

 

 

O exato momento do nascimento da Sophie. Tati e Dr. Edoardo em ação. 

 

Eu estava admirando a Sophie nos meus braços... não conseguia nem chorar, de tão exausta que estava... Quando, de repente, comecei a me sentir estranha, meio tonta, trêmula... “Acho que a minha pressão está baixando”, falei. O médico pediu para a Tati pegar a Sophie. Eu não quis dar. Mas estava piorando. Pegaram a Sophie e me deram um suco de caixinha. Sentada no banquinho, tomando o suco, eu via a equipe fazer os procedimentos na Sophie. Fiz sinal para a Tati, que rapidamente lembrou a equipe que nós não queríamos que pingasse colírio na nossa filha. (Inclusive, ela teve 9 no teste de Apgar.) E eu, apaguei de vez, desmaiei. Só lembro do Yoseff me segurando por baixo dos braços e o médico falando pra me erguerem e me colocarem na cama. Disseram que eu apaguei por uns 3 minutos.

 

Lembro de ouvir uma voz lá ao fundo: “Nani, Nani!”, eu abri os olhos, era a Tati, no lado esquerdo; o Yoseff estava no meu lado direito. Eu acordei de vez e tudo voltou ao normal. A Tati trouxe a Sophie de volta pra mim, a deitou no meu peito e me mostrou como ela mama. Foi maravilhoso. Esfomeadinha linda, mamou direitinho. Em seguida, prepararam as coisas para irmos para o quarto. O Yoseff fez uma oração agradecendo a Deus pela vida da Sophie, por aquele time de profissionais maravilhoso e pela bênção de sermos pais. E eu saí da sala de parto, mais esfomeada que a Sophie e feliz da vida, agora mãe.

 

Sophie pós-mamada, eu e a Tati.

 

 

Time completo - sentido horário: Dr. Edoardo Copelli, Yoseff (marido/pai), Tati Lima, eu e a Sophie.

 

 

De volta ao quarto; mas agora , com o nosso pacotinho nos braços. | Fotos: papai inspirado.

 

 

Profissionais 

 

Enfermeira obstetra que deu o curso em casa: Denise Ribeiro

Ginecologista Obstetra da primeira parte do pré-Natal: Claudiane Arruda

Ginecologista Obstetra da segunda parte do pré-Natal e do parto: Edoardo Copelli

Enfermeira obstetra que acompanhou o parto: Tatiana Lima

Enfermeira obstetra, amiga da Tati: Nelly Rocha

Pediatra neonatologista (que conhecemos depois do parto): Vânia Medeiros

Fotógrafa do ensaio do barrigão e newborn: Michele Marques.

 

 

 

 

Agradecimentos

 

A Deus - por absolutamente tudo o que somos e tudo o que temos.

 

Ao meu marido, Yoseff - por estar nessa jornada comigo de corpo e alma. Não só pelo apoio constante, por prover tudo e mais um pouco para me manter saudável, mas também por me relembrar dos meus próprios objetivos nas horas de desânimo ou ansiedade.

 

Aos meus pais, Lia e Ruben - por respeitarem minhas decisões, especialmente pela escolha do parto natural, tão carregado de histórias terríveis de outras pessoas; por nos ajudarem de forma prática e por orarem sem sessar.

 

Ju Midori (amiga de infância) - por me pentelhar todos os dias com um milhão de perguntas, dicas, sugestões (que ela coleta com todas as amigas dela) e lembretes, que acabavam me levando a pesquisar (ainda) mais e me organizar melhor.

 

Sabrina (amiga, ex-colega de trabalho na AlmapBBDO) - a primeira pessoa a me falar (com muita paixão) da importância de ter ajuda profissional para o parto e amamentação. Por me indicar a enfermeira que nos deu o cursinho em casa.

 

Thati (amiga querida, da IASD da Casa Verde; a pessoa mais exigente que conheço) - por indicar a Dra. Claudiane, com quem fiz a primeira parte do pré-natal.

 

Caru (amiga, ex-colega de trabalho na AlmapBBDO) - primeiramente, por compartilhar com o mundo a sua história de superação na perda de um filho e o relato do parto da segunda filha; por dividir os contatos de vários excelentes profissionais; pela sensibilidade e palavras de apoio.

 

Jeisa e Larissa (amigas, ex-colegas do 1o Grau) - pela prontidão em ajudar, pela paixão com que contaram suas experiências lindas de parto natural, pelas muitas palavras de apoio.

 

Amanda (amiga, ex-colega do 2o Grau) - por dividir comigo sua experiência linda no Canadá e por me colocar em contato com a Tati tão prontamente.

 

Lua (prima que mora em Paris) - pelos conselhos, palavras de apoio e orações.

 

A todos - que oraram e torceram por nós. 

 

 

 

Foto: Michele Marques 

 

 

PÓS-PARTO

 

A minha ficha demorou demais pra cair. Foi tudo tão intenso e tão surreal - e eu me concentrei somente na Sophie, no hospital - que só consegui parar pra pensar no parto mesmo, quatro dias depois, em casa. Tive um déjà vu que foi o estopim para virem todas as lembranças... Eu estava sentada na beira da cama e o Yoseff acordou e se sentou atrás de mim. Eu larguei o meu peso nele, e na hora me veio a lembrança da gente no banquinho de parto. Me acabei de chorar. Chorei, chorei, chorei gostoso, de felicidade. Uma sensação de plenitude tomou conta, paz e gratidão a Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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